TOMIO - GOLA RULÊ VERMELHA: O HORROR DO DESEJO E A DESINTEGRAÇÃO DA IDENTIDADE

Junji Ito já provou inúmeras vezes ser mestre em transformar o banal em grotesco, o íntimo em monstruoso e o erótico em traumático. “Tomio - Gola Rulê Vermelha”, conto presente em Fragmentos do Horror, é um exemplo claro dessa capacidade: uma história que mistura adultério, bruxaria, horror corporal e delírio psicológico em uma espiral de insanidade.
Para muitos leitores, no entanto, a narrativa deixa mais perguntas do que respostas. Por isso, esta matéria detalha o sentido simbólico, temático e psicológico do conto - essencial para quem saiu da leitura perturbado, confuso… ou ambos.


A TRAMA EM UM OLHAR CLÍNICO

Tomio chega ao apartamento da namorada, Madoka, em pânico absoluto. Ele veste uma gola rulê vermelha e mantém as mãos firmes em torno do próprio pescoço - como se impedisse a própria cabeça de cair. A partir daí, o conto retrocede para mostrar como ele chegou àquele estado.

O gatilho é aparentemente simples:
Tomio e Madoka visitam uma vidente, que logo demonstra um interesse inquietante pela cabeça de Tomio. O fascínio se intensifica quando Tomio, num impulso sexual e imprudente, se deixa seduzir por ela e inicia um caso. Esse encontro abre as portas para o grotesco:

A vidente tenta estrangular Tomio com um fio de cabelo. Revela uma coleção de cabeças decepadas, preservadas como troféus. E finalmente, lança uma maldição que faz com que sua cabeça comece a se desprender.

Após episódios de bruxaria, violência simbólica e alucinações, Madoka intervém e mata a vidente. Mas o horror continua: demônios infantis atacam Tomio, aparentemente decapitando-o. Ele acorda depois - vivo, mas psicologicamente destruído, condenado a segurar a própria cabeça como se ela estivesse sempre prestes a cair.

É um final aberto, perturbador, e que propositalmente não oferece conforto.

O HORROR COMO METÁFORA: ENTENDENDO O CONTO

Junji Ito não quer apenas assustar - ele quer revelar, através do bizarro, aquilo que se esconde na psique humana. E “Tomio - Gola Rulê Vermelha” é particularmente rico em simbolismos.

A seguir, os principais e mais relevantes para compreender o conto:

1. Desejo sexual como porta para o sobrenatural

O adultério cometido por Tomio é o ponto de virada da história.
Na estética de Ito, o erótico costuma ser o disparo do horror - a busca pelo prazer abre brechas para forças desconhecidas e incontroláveis.

Aqui, a traição é representada como: Punição corporal; Fragmentação mental e perda do próprio corpo

A sedução vira maldição. A atração vira predador. A fantasia vira desintegração.

2. A cabeça como símbolo da identidade despedaçada

A imagem de Tomio segurando a própria cabeça é, ao mesmo tempo, literal e metafórica.

A cabeça representa: Identidade, razão, autocontrole e integridade psicológica.

Quando Tomio perde a cabeça (no sentido simbólico e físico), ele perde o controle sobre si mesmo.
A necessidade de segurá-la revela o estado de fragmentação após a infidelidade - um sujeito que já não reconhece seu próprio self.

3. O pescoço, a gola vermelha e o fio de cabelo: símbolos do estrangulamento emocional

O pescoço cortado, a marca oculta e a gola rulê vermelha representam: Silenciamento, vergonha, medo de ser descoberto, asfixia emocional resultante da culpa.

O fio de cabelo da vidente - algo íntimo e feminino - transforma-se em arma. É o laço afetivo tóxico que estrangula, literalmente.

Essa relação entre erotismo e violência é recorrente em Ito, que frequentemente critica impulsos sexuais imaturos e suas consequências psicológicas.

4. A vidente e sua coleção de cabeças: o feminino como força devoradora

A vidente é mais que uma antagonista. Ela é um arquétipo da femme fatale sobrenatural, uma manifestação do desejo obsessivo, um símbolo do poder devorador do erótico quando descontrolado.

As cabeças que coleciona evocam castração simbólica, objetificação do corpo masculino, e consumo do sujeito, tanto físico quanto psíquico.

Ela representa a parte do desejo que destrói - o apetite que toma o lugar da razão.

5. Os demônios infantis: punição e regressão

As criaturas que atacam Tomio no clímax funcionam como punição sobrenatural, regressão infantil, e metáfora da imaturidade emocional do protagonista.

Eles simbolizam como impulsos infantis (como a irresponsabilidade afetiva) invocam consequências que o adulto não é capaz de enfrentar.

6. Horror corporal como espelho da psique

Junji Ito é mestre do body horror, mas ele nunca usa o grotesco apenas pelo choque.
No caso de Tomio, o horror corporal é a forma visual de um colapso emocional:

A cabeça prestes a cair = ego fragmentado

O corpo que não obedece = vida fora de controle

A maldição persistente = trauma que nunca é realmente superado

O grotesco é a anatomia do trauma.

7. O final: trauma como estado permanente

Quando Tomio “acorda” com a cabeça recolocada, o leitor entende que o horror não acabou.

Ele nunca mais poderá confiar no próprio corpo.
Ele nunca mais será inteiro.
O trauma se torna parte de quem ele é.

Ito fecha o conto com uma mensagem dura:
certos erros e certos traumas deixam marcas que não desaparecem - apenas se transformam.

POR QUE ESTE CONTO É UM DOS MELHORES DE FRAGMENTOS DO HORROR?

Críticos e leitores destacam “Tomio - Gola Rulê Vermelha” como um dos pontos altos da coletânea porque ele reúne o melhor do estilo Ito: body horror inventivo, atmosfera sexual perturbadora, personagens moralmente falhos, simbolismo psicológico profundo, ritmo crescente de loucura, final devastador.

É um conto que funciona tanto como horror quanto como crítica emocional - e, acima de tudo, como um espelho da fragilidade humana diante do desejo, do arrependimento e do sobrenatural.

CONCLUSÃO: A HISTÓRIA DE UM HOMEM QUE PERDEU A PRÓPRIA CABEÇA

No centro, o conto é a história de Tomio - um homem comum que, ao se deixar levar pelo desejo, abre espaço para sua própria destruição.
Junji Ito usa o grotesco para amplificar o psicológico; usa o sobrenatural para revelar a natureza humana; usa o absurdo para escancarar o real.

Com isso, “Tomio - Gola Rulê Vermelha” se torna muito mais do que um relato bizarro: é um comentário sobre culpa, identidade, desejo e as consequências invisíveis das escolhas feitas às sombras.

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